Ninguém sabe, ninguém ouve, ninguém vê. Todos fingem.
A violência rodeia-nos.
A violência sufoca-nos de medo. Medo e vergonha que os outros saibam.
Medo de sermos vitimas ou voltarmos a ser.
E porque às vezes a dependencia do violador, é aparentemente irreversível. Há filhos para educar.
Não. Não é o status que se tem de manter. Mas os filhos que se tem de alimentar e educar.
Somos agredidos na rua, para nos tirarem os carros, as carteiras, os cartões multibanco.
Somos agredidos em casa, porque fomos atingidos pelo desemprego, e não temos contra quem nos revoltarmos, ou em quem descarregar a culpa.
Mas as crianças?
Quando a comida deixa de chegar para as crianças. Quando elas deixam de tomar um banho quente porque o gas foi cortado. Não é tudo isto uma violência?
E quando o companheiro, ou marido, chega a casa depois dum dia em que não conseguiu emprego, ou depois de ter gasto tudo no casino, ou simplesmente, porque não tem coragem para acabar com a relação e encetar uma nova, com a secretária, e descarrega na mulher, na companheira, às vezes, na mãe dos seus filhos, a raiva, a frustração, apenas por uma gota de água.
E tudo fica no silêncio da casa.
Os amigos fingem não perceber, os colegas, não comentam pelo embarasso, os filhos alheiam-se por não conseguirem uma solução. Mas a violência existe, sim.
E como dizia Maria de sessenta anos, à porta do consultório, falando dum ex-marido que a violava e a violentava aos vinte anos, e que ela acusava como tendo sido o responsável pelo pelo suicidio do filho: - Sabe nós à noite perdoamos tudo!
Eu digo, que nem de noite nem de dia se pode perdoar um qualquer monstro, que usa o seu poder económico, social, ou até a sua força fisica, para nos subjugar para nos violar e nos humilhar.
Quando será que conseguimos parar de fingir. Parar de nos acobardarmos?
E o sistema nada faz. E se a vitima se defende em legitima defesa, " aqui d'El-Rei" que não podia fazer justiça pelas proprias mãos.
Até quando?
A criminalidade está aumentar, sim. A pobreza também.
Mas porque se finge que nada se vê, nada se ouve, de nada se sabe?
Porque continuamos neste teatro, que acaba inevitávelmente em tragédia.
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