terça-feira, 17 de março de 2009

Parabens NI


Hoje o teu filho faz vinte e três anos. Mandei-lhe os parabens. Não me respondeu. Ainda continua zangado comigo.
Hoje faço-te esta homenagem, porque durante a tua vida, mostráste sempre ser uma guerreira, vivendo sempre na dualidade, que se impõe a uma geminiana.
Sempre oscilando entre o bem e o mal.
Quando estavas bem, apenas parecia que estavas, mas estavas também mal. Quando estavas mal, estavas péssima, e a tua doçura dava lugar a uma preversidade e a uma maldade nunca vista.
A doença, soube-se já muito tarde do que sofrias. E ninguém conseguia aturar-te, suportar-te. Só a mãe.
Aliás só as mães têm essa dose de abnegação, de solidariedade, de AMOR, que mais ninguém tem.
E como ela sofria quando tu não lhe atendias o telefone, ou não lhe querias abrir a porta.
Lembras-te quando uma noite me telefonas às quatro da madrugada, a despedires-te de mim, porque te querias suicidar?
Lembras-te?
Ainda não havia telemóveis. E eu consegui manter-te ao telefone, ouvindo e falando, até chegámos mesmo a conversar, para dar tempo de que alguém pudesse ir avisar a mãmã pela cabine, para que fosse rápido a tua casa.
Nós nunca te deixaríamos morrer. Nunca.
Nunca tiveste muita sorte com os homens. E eu que pensava que eu é que não tinha....
O último deixou-te morrer abandonada, sem apoio, sem ninguém. Mas era teu marido de papel, de contrato, até com o apelido tu ficaste....
Sei que morreste intoxicada, porque ninguém quis saber que tu existias.
Só nos chamou depois. Quando foi obrigado a chamar a policia.
Porque não o fez antes?
Hoje estou sozinha. E custa-me a conformar, e a aceitar.
Passo a vida a fingir, para que não me chateiem, e me digam apenas o que eu também se calhar diria.
Os meus filhos, e teus sobrinhos não são da minha familia. Eu é que sou da familia deles.
Olham em frente, e seguem.... Como eu fiz e tu também fizeste.
Foi o destino, dizem uns. Já tinha de acontecer dizem outros.
Mas lembras-te dos sonhos que tinhamos em crianças?
E lembras-te de te irritares por me chamarem o pendulo do colégio, por ser sempre muito certinha?
Lembras-te Ni?
Já não sou masi certinha. Agora deu-me para os disparates. Quero experimentar o que é estar à beira do abismo.
O que é a adrenalina. Como quando tu disparavas a cavalo e mais ninguém te agarrava.. Na Giolegã..
Se não tivesse sido essa doença, a BIPOLAR, que muitos psiquíatras nem sabiam que existia, e que te dopavam, e dopavam, e tu dormias e dormias... E diagnosticavam uma mera depressãozoinha...E trocavas a noite pelo dia e vice versa.
Sempre me invejaste. O papá dizia que quem muito inveja não medra.
E se calhar era verdade.
De mim, Ni. Porquê?
Se tu tinhas tudo e conseguias sempre tudo.
Eu nada sou, e nada tenho.
Porque havia duma irmã ter inveja de mim?
Nem sonhas porque estou a passar.
Um dia se nos encontrarmos por aí, eu conto-te. E voltamos a conversar.
Sabes, o ano passado estive em cima da "ponte", entre cá e aí. E foi enorme a agonia. Fizeram-me regressar. Para sofrer ainda mais.
Mas quando o meu tempo chegar, havemos de nos encontrar, e que seja rápidamente.
Tenho muitas saudades tuas, e do pápá e da mamã.
Sinto-me só.
E começo a estar cansada de ter de contiuar a representar.
Sabes os palhaços também choram, apesar de fazerem rir muita gente.
Até um dia, e vê lá se te emendas.
Perdoa-me se não soube cuidar de ti como devia.
Talvez ainda estivesses aqui, para conversarmos.
Um forte xi-coração de muita saudade. Até um dia.

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